Movimento de Expressão Fotográfica – Um caso de estudo de arte participativa



 

‘O desenvolvimento de uma cultura estética visual em todas as suas dimensões conceptuais e quanto a nós acessível a TODOS é fundamental para quem somos. Produzir narrativas e memórias visuais é assim integrador.’

Luís Rocha

Reconhecimento

  • Um jovem sai a porta de um centro educativo com uma câmara fotográfica artesanal, para explorar a cidade à procura de uma imagem que queira trazer consigo quando, ao fim do dia, regressar à instituição.
  • Uma idosa olha uma rua lisboeta onde em tempos viveu e não vê nada que reconheça, até que uma memória da igreja que frequentava lhe aparece como um presente inesperado.
  • Um cego descreve pinturas que viu na sua juventude e diz que existem três tipos de olhos: um para como ele vê o mundo, um para como os outros o veem a ele, e outro para como ele realmente é.
  • Um homem às portas da morte diz à enfermeira que quer oferecer aos seus velhos amigos uma fotografia que lhes tirou em tempos.

Talvez estas pessoas nunca cheguem a conhecer-se, mas se isso acontecer, será provavelmente porque todos eles fizeram fotografia com Luís Rocha, Tânia Araújo e os seus amigos do MEF, o Movimento de Expressão Fotográfica. Na verdade, encontros desse tipo não são de todo improváveis, tendo em consideração que juntar pessoas é central ao propósito do MEF. As exposições, que constituem a faceta pública de cada projeto, mas não necessariamente a sua conclusão, são símbolos dessa integração social e cultural. Por vezes, são eventos coletivos que incluem fotografias feitas por portadores de deficiência, idosos, cegos, jovens e outros indivíduos à margem da sociedade, com o objetivo de proporcionar que essas pessoas se encontrem e conheçam umas às outras. Podem ter que passar por um processo longo e rigoroso para chegar a esse ponto, mas é exatamente isso que lhes permite obter lugar na galeria, e na cidade, de forma confiante.

Inauguração Integrar pela Arte MEF_Loures2011_ (45)

‘Os resultados são muito importantes. É muito poderoso ver o trabalho materializado numa exposição no final do trabalho, para que os participantes tenham um retorno do que realizaram. O resultado é uma prova de como ‘eu posso fazer, eu consigo fazer’. Os outros podem me ver através do que realizei; é uma aceitação, uma aprovação. Eu acho que é a arte.’

Tânia Araújo

Lagartas e borboletas

O Movimento de Expressão Fotográfica foi fundado em 2001 por um grupo de amigos com interesses e valores comuns, que viam a fotografia como uma forma de vida social a que toda a gente deve ter acesso. Tinham como objetivo criar uma plataforma para arte documental que fosse inclusiva e rigorosa, estimulasse o debate, elevasse a fasquia e promovesse a consciência do seu valor expressivo. O MEF foi criado como uma associação sem fins lucrativos que se desenvolveu mais em reposta a oportunidades surgidas do que através de uma estratégica. Os cursos de fotografia eram, e continuam a ser, a base da sua atividade. Indo de programas de introdução à fotografia a atividades no terreno com viagens a Marrocos ou ao Camboja, atraem fotógrafos amadores e semiprofissionais. Os custos são mantidos baixos e as pessoas regressam com frequência para fazer outros cursos, assegurando simultaneamente uma fonte de rendimento regular e um sentimento de interesse comum entre um grupo alargado de pessoas. Presentemente, ao fim de dez anos de atividade, existe um espírito de família que une uma série de indivíduos e grupos comunitários em torno do MEF.

Imagine Conceptuale (MEF) (1)

O MEF encontrou o seu domicílio no Bairro Padre Cruz, uma área da zona norte de Lisboa que se desenvolveu entre as décadas de 1930 e 1960 e em que muitos dos residentes são provenientes de outros lugares, incluindo as ex-colónias portuguesas. Revelou-se uma base ideal – a renda era baixa e havia facilidade em encontrar pessoas com quem trabalhar. A prática social que constitui a outra vertente do trabalho do MEF, cresceu a partir desses encontros e do compromisso do grupo com a inclusão (social). A fotografia é a sua paixão e especialidade devido, pelo menos em parte, ao facto de ser uma disciplina acessível.

Não querendo isso dizer que produzir fotografia forte e com significado seja fácil. O MEF coloca um desafio aqueles com quem trabalha, tendo deles as mesmas expetativas que tem de qualquer outro fotógrafo. Sentindo-se parte do bairro, foi com prazer que o MEF acolheu convites para desenvolver projetos com grupos comunitários. Os artistas tiveram necessidade de desenvolver novas abordagens para trabalhar com pessoas cegas ou idosas, mas os padrões artísticos existentes mantiveram-se inalterados. Ocasionalmente, aqueles com quem trabalhavam mostravam-se surpresos por serem tratados como pessoas ‘normais’, mas para o MEF é exatamente aí que a integração começa e acaba. Toda a gente e ninguém é normal.

Desde 2006 que o número e leque de projetos comunitários que o MEF tem tido capacidade de executar, vem a aumentar progressivamente, apesar de cada projeto depender de subsídios de curta duração e do compromisso voluntário dos sócios. Presentemente, o rendimento ainda é apenas suficiente para empregar dois elementos, Luís Rocha e Tânia Araújo. O trabalho é árduo e moroso.

Imagine Conceptuale (MEF) (4)

Um projeto com idosos pode consistir em sessões de três ou mais horas, duas vezes por semana, ao longo de vários meses. Pode levar semanas até que seja feita alguma fotografia, porque o importante é encontrar sentido na memória. São feitas visitas a locais onde os idosos viveram. Reencontram-se com amigos que não viam desde que foram viver para o lar. Compram um bolo numa loja de que eram clientes. Veem uma esquina por onde passavam diariamente. Chegam as memórias e são partilhadas com o grupo. É então que a fotografia se torna clara: que faz sentido. É altura de pegar na câmara.

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O MEF usa técnicas digitais e analógicas, dependendo da situação. Uma câmara digital pode ser usada como um caderno de rascunhos, para fazer experiências e escrever anotações. No caso de pessoas cegas ou com visão reduzida, o ecrã destas câmaras pode funcionar como um painel táctil, em que os dedos são conduzidos sobre a imagem para sentir as suas formas. Mas o processo lento e estruturado da fotografia analógica também tem o seu valor e os artistas têm-se apercebido que geralmente as pessoas respondem de forma diferente à sua fisicalidade e tonalidades específicas. As ideias vão-se tornando nítidas como imagens na bacia de revelação de uma câmara escura. O MEF tornou-se especialista no uso de câmaras estenopeicas básicas, construídas em cartão por quem as vai utilizar. O carácter elementar e ancestral da camera obscurae a natureza das imagens que produz, destaca a fotografia como um portal entre os mundos interior e exterior.

O processo é longo, mas permite que o grupo dê atenção individual a cada um dos seus elementos. Ouve-se mais do que se fala, olha-se mais do que se tiram fotografias. Tal como muito do que é realmente importante na arte participativa, são pormenores invisíveis para quem está de fora e vê apenas as imagens finais que são selecionadas para exposição. Só fazendo parte do grupo é que se pode experienciar esse processo ativo de construção de sentido. Tal como as borboletas, as fotografias saem para o mundo sem uma palavra sobre as lagartas que as geraram.

Respeito pelas ferramentas adotadas

Os projetos de arte participativa falham pelas mesmas razões que falham quaisquer outros projetos. Questões maiores – como a inexperiência, incompetência, falta de empatia e ego – conduzem a outras que afetam o projeto de forma direta, como o planeamento ineficiente, a falta de recursos ou choques de personalidade. Mas falham também devido a uma questão inerente à prática participativa: não atribuir à arte o seu devido valor.

Esta arte é irrequieta por ter mais do que um objetivo. A criação artística é contrabalançada por objetivos sociais como a educação, a saúde, a inclusão social, o desenvolvimento comunitário ou a construção da paz. Cada projeto é uma coligação única de interesses pessoais e organizacionais. Os diferentes intervenientes têm conhecimento que em parceria tudo se desenvolve de um modo diferente. Afinal, essa diferença é exatamente o motivo da sua participação. Contudo, todos esperam também atingir os seus próprios objetivos, o que significa que o sucesso do projeto depende de se atingir um equilíbrio entre os interesses de todos os envolvidos.

Demasiado enfoque nos objetivos artísticos pode levar a um tipo de esterilidade em que os não-profissionais se cingem a seguir instruções dadas pelos artistas profissionais. O resultado pode ser satisfatório do ponto de vista estético; pode ser apreciado e valorizado tanto pelos participantes como pelo público. Mas, em última análise, será somente mais um produto artístico com pouca probabilidade de mudar vidas individuais ou condições sociais.

MEF Este Espaço Que Habito - 8

Um dia diferente para um rapaz pouco contente, felizmente. Há estas oportunidades em que respiramos livremente. Descobrimos algo dentro de nós, mesmo sem utilizar a voz, tiramos fotos ao que nos agrada e tiramos algum tempo para ficarmos sós. Se fica bem ou não, só depois o veremos, divertimo-nos com o que temos, partilhamos o que vemos, e a pessoas importantes mais tarde oferecemos… Momentos serenos! Obrigado!!

Participante, (MEF, 2017, Este Espaço Que Habito, Lisbon)

Demasiado enfoque nos objetivos sociais é igualmente arriscado. Se a intenção é usar a arte com um propósito social, é lógico que se respeite a ferramenta adotada. O único motivo de usar a arte na educação, é que esta consegue obter resultados não conseguidos por outros métodos. No entanto, é comum as pessoas adotarem uma abordagem para depois usá-la da forma que lhes é familiar. A arte não funciona como a educação. Chega às pessoas de uma forma diferente e produz ligações rápidas e inesperadas. Requer que usem partes diferentes da sua mente ou que trabalhem de uma forma diferente. Forçar a arte a enquadrar-se em normas que lhe são alheias, reduz grandemente a sua eficácia

A arte é frequentemente vista como uma forma de cativar e envolver adolescentes que enfrentam dificuldades no ensino, no trabalho ou em casa, e nessa idade pode realmente ser uma tábua de salvação. Ao ajudar os jovens a ganhar novas competências pessoais, sociais e de ordem prática através de uma atividade criativa, os projetos artísticos podem de facto mudar as suas vidas. A arte pode ajudá-los a descobrir inesperadamente que são bons em alguma coisa. Mas é pouco provável que esses resultados sejam obtidos se a arte em questão for medíocre ou enfadonha e se os processos adotados forem semelhantes aos que são usados pela escola. Há que lembrar que estes jovens se encontram em situações difíceis exatamente pelo facto da oferta existente não os tocar: é essa a razão pela qual necessitam de algo diferente, mais desafiante e inspirador.

Valorizar a integridade do processo artístico, não significa ser-se pedante ou pretensioso. O importante é que os artistas profissionais que lideram o projeto sejam ambiciosos, imaginativos e sérios. Que tenham um conhecimento profundo e experiência para partilhar. Que estabeleçam padrões elevados, tanto para si próprios como para o trabalho e que esperem que, dentro das suas capacidades, todos se rejam pelos mesmos padrões. Que acreditem na capacidade única de cada pessoa e a ajudem a encontrá-la. Que lá estejam para fazer arte de que todos, incluindo eles próprios, possam justificadamente tirar prazer.

Todas estas qualidades fazem parte do trabalho do MEF.

À nossa maneira

‘A fotografia é uma arte acessível a todos. Está em toda parte. Todos as pessoas sabem o que é. Então, é uma maneira de encontrar espaço para a vida, liberdade mental, uma maneira de se comunicar.’

Tânia Araújo

Entre 2014 e 2016, o MEF trabalhou com jovens a cumprir medida tutelar de internamento em seis instituições, num projeto intitulado Este Espaço Que Habito. O projeto começou comcada um dos participantes a construir uma câmara estenopeica. De seguida, os jovens estudaram mapas da cidade para encontrar lugares que tivessem significado para si e prepararam-se para viagens extramuros em que pudessem explorar a relação entre o que sentiam, recordavam e viam, antes de usar as câmaras para fotografar. Uma vez reveladas, as imagens eram devolvidas aos participantes para que as incluíssem em blocos de apontamentos construídos por si próprios. Por baixo de cada imagem escreviam qual o significado da mesma nas suas vidas. Estes cadernos eram documentos íntimos e símbolos de uma nova autoconsciência. Cada caderno era o registo de uma vida em desenvolvimento, criado e para ser continuado, pela própria pessoa a vivê-la.

Mas, como em qualquer outro projeto do MEF, a dimensão pública foi igualmente importante. Os trabalhos mais fortes de cada instituição, foram selecionados para exposição, digitalizados para ser colocados em caixas de luz e apresentados em galerias locais. Quase 200 jovens tomaram parte no projeto e a sua resposta à experiência tem sido muito positiva. Com o regressar à forma mais básica da fotografia numa era plenamente digital, os artistas encorajaram os jovens a abrandar e pensar sobre as imagens que produziam. Os materiais usados eram baratos, mas o processo muito rico – sério e exigente, ofereceu aos participantes percursos de crescimento pessoal.

Importa, finalmente, referir que estes jovens, por terem passado por estas fases com desempenhos bastante elevados, ultrapassaram uma série de barreiras que lhes são imputadas, e este impacto sobre os próprios será validado na última fase do projeto, a fase de exposição das imagens, consistindo no momento onde todo este percurso, tanta vezes em movimento contrário ao seu padrão de comportamento habitual, será reconhecido, não pelos pares, mas por alguns que podem ser percecionados como aqueles que os excluem.

Tiago Santos (MEF, 2017, Este Espaço Que Habito, Lisbon)

O desenvolvimento social possibilitado pelo projeto, aconteceu por o trabalho ter sido constantemente centrado na arte. A preocupação das instituições para jovens a cumprir medida tutelar é a reabilitação e não a criatividade. O paradoxo da arte participativa é que – no seu melhor – produz resultados sociais sem se esforçar por o fazer. Numa situação em que é conscientemente dada tanta atenção ao comportamento e às escolhas, uma oportunidade de despender tempo sem pensar no passado e no futuro, é rara e preciosa. Com o ato de produzir uma fotografia, os artistas ajudaram estes jovens a ver a importância do momento presente. Em vez de os tratar como infratores, o MEF viu os participantes como pessoas com histórias, talentos e algo para dizer. No espaço imaginativo e criativo da arte, foram capazes de prosperar de novas maneiras.

Seria errado pensar que este projeto, por si só, vá necessariamente mudar o rumo das vidas dos participantes, apesar de que pode fazê-lo. Como frequentemente acontece com este tipo de trabalho, o tempo e a distância tornam difícil tirar esse tipo de conclusões. Mas até o potencial do projeto para gerar uma mudança positiva, depende da sua integridade artística. Na galeria, as fotografias tiveram que funcionar independentemente do processo ou de quaisquer outras questões que se pudessem ter em conta. Apesar de uma potencial boa vontade, se a reação do público for que ‘é bom para jovens infratores’, vai apenas reforçar a exclusão social que o projeto visa combater. Só quando o público vir o trabalho em si como bom, é que vai reconhecer quem o fez como um cidadão pleno, livre e igual. Isso não significa que os visitantes da galeria tenham que gostar, apreciar ou compreender todas as fotografias – apenas que devem vê-las como trabalhos artísticos legítimos que solicitam a mesma reação humana que toda a arte.

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Agradecimentos Tânia Araújo, Luís Rocha. Fotografia: cortesia do MEF

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Movimento de Expressão Fotográfica