O Portland Inn Projeto – Um caso de estudo de arte participativa

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‘Quais são as nossas motivações? Como é que nos certificamos que isto não tem mais a ver connosco como artistas e com aquilo que queremos? Quando é que estou a ser vizinha e quando é que estou a ser artista?’

Anna Francis

Vender a cidade pós-industrial

Stoke-on Trent é uma federação de oito vilas inglesas que se desenvolveram no século XIX em torno de indústrias como a mineira, a do aço e, principalmente, a da cerâmica de marcas de renome que incluem a Wedgwood, a Minton e a Spode. Passou a cidade em 1925 e na geração seguinte tinha já 276.000 habitantes. No entanto, há anos que vem a perder a batalha travada contra a desindustrialização. As minas de carvão e fábricas de aço da cidade fecharam, ao que se seguiu o encerramento das grandes fábricas de porcelana responsáveis pela sua reputação. A unidade fabril da Spode fechou em 2008, ao fim de 230 anos de atividade. Alguns nomes sobrevivem como marcas, mas a produção tem sido transferida para outros locais. Em 2001, a população da cidade tinha sofrido uma redução de cerca de 35.000 habitantes.

Tal como tem acontecido com outras cidades devastadas por tempestades económicas, a autarquia local de Stoke enfrenta a tarefa árdua de eliminar o que resta da indústria pesada e encontrar novas fontes de emprego e prosperidade para as suas gentes. As habituais parecerias do setor público-privado ocupam-se das infraestruturas e de tornar a cidade mais atraente para investidores externos, incluindo a empresa de vendas online Amazon. As indústrias criativas são vistas como parte desse futuro e foi criado um bairro cultural. A área de quase 40.000 m² das antigas instalações da Spode foi comprada pela Câmara Municipal e a sua reabilitação inclui edifícios de habitação, um museu e 43 estúdios para artistas. O Arts Council England apoia o programa de artes participativas Appetite, que ‘tem como objetivo conseguir que mais pessoas em Stoke-on-Trent experienciem e sejam inspiradas pelas artes’. Com o apoio de organizações culturais, universidades, comunicação social e outras entidades locais, a Câmara Municipal de Stoke candidatou-se a ser a próxima Cidade Cultural do Reino Unido, em 2021. Apesar de ter perdido a favor de Coventry, a experiência foi revigorante.

Na periferia desses grandes planos, encontram-se as inúmeras pequenas comunidades que constituem a cidade, onde serão – ou não – sentidas quaisquer melhorias na vida da população. Existe em Stoke uma infinidade de edifícios vitorianos em estado de degradação: são muitas as fábricas, lojas e casas que se encontram vagas e sem comprador. Em 2013, a Câmara decidiu vender algumas dessas propriedades, oferecendo incentivos generosos aos novos residentes na esperança de fortalecer uma zona fragilizada. Em Cobridge, foram oferecidas 33 casas ao preço nominal de uma libra, o que, naturalmente, atraiu publicidade e alguma controvérsia. Na realidade, visto os compradores terem que assumir o custo das obras de reabilitação, o preço final das casas rondava as trinta mil libras. Apesar de tudo, mesmo no local em questão, o custo era baixo para uma casa de dois ou três quartos e vinha com algumas condições. A primeira era um limite salarial, destinado a beneficiar famílias com baixos rendimentos. A segunda, que o comprador teria que habitar a casa por um período mínimo de cinco anos e não a poderia vender por dez. O contrato de venda estipulava ainda que os compradores teriam que ser elementos ativos na comunidade, apesar de que o significado dessa cláusula era aberto a interpretação. Todas as casas disponíveis foram vendidas e ocupadas no espaço de um ano. Entre os novos residentes do bairro, encontrava-se a artista Anna Francis e a sua jovem família.

Anna Francis e o AirSpace

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AirSpace

Anna Francis tinha estudado na Universidade de Staffordshire em Stoke, onde regressou para ensinar depois de um período passado no estrangeiro. Era também mentora no AirSpace, uma galeria e estúdio coletivo, criados em 2006 para apoiar artistas que quisessem permanecer em Stoke. Em 2007, a Câmara ofereceu ao AirSpace um edifício vitoriano desativado, localizado no centro da cidade, onde a organização criou nove estúdios, salas de reunião e uma galeria visível da rua. O AirSpace entende-se como um parceiro ativo na regeneração pós-industrial da cidade, com interesse em apoiar e questionar iniciativas locais. Paralelamente à sua própria prática artística, organiza workshops, exposições e eventos públicos. Tem ainda desenvolvido projetos ambientais piloto, incluindo o Spode Rose Garden, no local das históricas instalações da fábrica de porcelana que hoje alberga também a British Ceramics Bieennial.

Criada em 2009, a bienal tornou-se uma parceira regular dos projetos do AirSpace, incluindo o trabalho de Anna Francis na sua nova casa perto de Portland Street. O bairro fica a uns minutos a pé do centro da cidade, mas dá a sensação de ser muito mais longe. As suas moradias em banda foram construídas de forma económica e desde então tem havido pouco dinheiro para melhoramentos ou mesmo para manutenção. A maioria são alugadas e algumas encontram-se desocupadas. O nível de desemprego na área é o dobro da média nacional e as estatísticas relativas à saúde, educação e crime evidenciam as dificuldades enfrentadas pelos seus residentes.

Anna Francis tinha consciência da desconfiança dos vizinhos relativamente a iniciativas de regeneração urbana. Ao longo dos anos, tinham havido demasiados processos de consulta e demasiadas promessas não cumpridas. Ao planear projetos de arte, Francis enfrentou dificuldades de ordem prática, nomeadamente a falta de espaço comunitário onde trabalhar, e outras de natureza humana, incluindo a hostilidade de pessoas que não queriam atrair atenção para atividades ilegais. Haviam ainda dificuldades específicas da situação – o facto de que ela e outros se tinham mudado para a área com apoio da Câmara causou um ressentimento compreensível entre residentes que não tinham recebido esse tipo de ajuda. Em suma, era um caminho espinhoso.

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Artista e vizinha

‘Community Maker’, o nome dado por Anna Francis ao seu primeiro projeto, começou discretamente com oito dias de workshopsde cerâmica entre julho e agosto de 2015. A artista montou uma tenda no relvado adjacente a um pubentaipado e convidou as pessoas a trabalhar num mapa da área feito em barro, enfatizando as suas esperanças e dificuldades. Apesar da associação feita ao uso de flores típico da indústria da cerâmica e à sua simbologia, a atividade foi sobretudo uma oportunidade para as pessoas se conhecerem e falarem enquanto trabalhavam o barro. As conversas foram-se desenvolvendo em torno de chá e bolos, e a falta de espaço comunitário para atividades locais tornou-se uma queixa recorrente.

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Portland Inn Project

Nesse verão, Anna Francis conheceu Rebecca Davies, outra artista empenhada em questões sociais, que tinha sido convidada pelo programa Appetite para fazer um projeto em Stoke. Rebecca Davies é oriunda de Londres e muito do seu trabalho anterior explorava as tensões que tinham surgido em projetos de regeneração na capital britânica. Com uma partilhada preocupação sobre o lugar do artista em contextos sociais e um interesse por regeneração urbana, as duas artistas rapidamente se tornaram amigas. Decidiram trabalhar juntas na fase seguinte de ‘Community Maker’: um centro de arte comunitário de duração temporária, a decorrer durante o verão de 2016.

‘Quando andávamos em limpezas, alguém começou a dar pancadas na porta e a gritar que nos iria causar problemas. E nós pensámos ‘De onde é que temos apoio?’, é que na verdade estamos bastante expostas nesta situação precária. Como é que vamos lidar com esta questão? Porque queremos que este lugar seja para todos, e isso inclui aqueles que estão a gritar connosco.’

Anna Francis

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O Portland Inn Projeto

O espaço óbvio para o projeto era o Portland Inn, que se encontrava desocupado há anos, mas era recordado pelos residentes locais como um agradável polo comunitário. A Câmara Municipal, a quem o espaço atualmente pertence, deu permissão às artistas para o usarem temporariamente e fez até algumas reparações no sentido de tornar o edifício seguro. Depois de feitas limpezas e algum trabalho para tornar o espaço aprazível para as atividades, Anna Francis e Rebecca Davies abriram o Portland Inn Projeto a 8 de agosto de 2016.

No decorrer das quatro semanas que se seguiram, receberam 600 visitantes divididos por 54 atividades diferentes, incluindo workshopsde dança, noites de bingo, confeção de pastelaria, workshopsde cerâmica e muitas outras. Foi instalado um estúdio de fotografia em que as pessoas faziam autorretratos que as mostravam a desfrutar do tipo de atividade que gostariam que existisse no Portland Inn se o centro de artes comunitário se pudesse tornar permanente. E, no meio de todas essas atividades, continuaram os debates acerca de como torná-lo possível.

 

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Portland Inn Project

O sucesso da ocupação temporária e um plano de negócios sólido, convenceram a Câmara que o edifício podia ser doado à comunidade como um bem local. Em maio de 2017, o Portland Inn Projeto foi registado como Community Interest Company e iniciou-se o processo de aquisição do pub e de obtenção de recursos para o reabilitar e pôr a funcionar. Mas as artistas reconhecem que o caminho a percorrer apresenta os seus desafios, não só a nível organizacional como a nível artístico e humano. A fase inicial de desenvolvimento da relação entre artistas e comunidade teve um momento chave – uma das pessoas mais ativas em preparar o edifício para a reabertura, apareceu com uma enorme personagem de filme de animação feita em cartão. Queria-a lá para as crianças, mas a figura de cartão não correspondia à visão que as artistas tinham para o Portland Inn.

‘O Minion acabou por se tornar um símbolo. Foi um momento importante em fazer-nos perguntar o quanto que tínhamos a dizer relativamente ao aspeto estético e ao que iria acontecer no espaço. De repente apercebemo-nos de que não tínhamos pensado em questões de pertença e do espaço que existe para as outras pessoas.  Ambas detestávamos o Minion porque não se enquadrava no programa que tínhamos criado, mas apesar disso permaneceu no local.’  

Anna Francis

O caso do Minion exemplifica as diferenças de visão que podem existir entre os artistas e aqueles que são convidados a tomar parte nos seus projetos. Existem muitos outros exemplos, possivelmente mais enraizados em questões de poder do que de estética artística – e alguns mostram-se bastante mais difíceis de resolver. São os artistas que compreendem que este tipo de negociação não representa um jogo de soma nula, que cocriam o trabalho mais valioso. Apercebem-se que abdicar de parte da sua autonomia artística pode ser o percurso para o emergir de trabalho mais original e mais rico do que qualquer um possa conseguir imaginar e, muito menos, atingir individualmente.

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The complexities of social action

As complexidades da intervenção social

É fácil de ver como o ato de vender habitações de custo reduzido a pessoas vindas de fora, em troca de envolvimento comunitário, podia dar para o torto. Com uma enorme escassez de habitação em várias regiões de Inglaterra, o desenvolvimento imobiliário é frequentemente questionado e politizado. O lugar dos artistas na regeneração urbana tornou-se também questionado e politizado visto que, na sua procura por alojamento financeiramente acessível para viver e trabalhar, geralmente acabam por gravitar para áreas negligenciadas e de rendas baixas. A associação entre artistas e gentrificação (a transformação de zonas degradadas para e por residentes com posses) é debatida desde a década de 1980. Alguns veem os artistas e as indústrias criativas como pioneiros da regeneração urbana; para outros, eles são apenas joguetes ou colaboradores dos especuladores imobiliários, cujo lucro depende da marginalização dos mais pobres. Mas associação não é o mesmo que causa. E, numa economia de desenvolvimento imobiliário orientada por forças muito mais distantes e poderosas, os artistas provavelmente não são assim tão importantes ou culpados.

O facto de as questões acontecerem em simultâneo não significa que estejam necessariamente relacionadas. A partir da década de 1980, as cidades industriais têm-se vindo a debater com enormes mudanças sociais e económicas que conduzem à degradação e – com menos frequência – à regeneração dos seus espaços físicos. Desde a mesma época que a importância económica e social da cultura tem também vindo a crescer grandemente, conduzindo a um número mais elevado de artistas e trabalhadores das indústrias criativas. O excesso de oferta sobre a procura na economia criativa mantem a maioria dos artistas relativamente pobres, o que faz com que vivam e trabalhem onde é acessível. Esses locais têm tendência a ser também lugares de excelência para o desenvolvimento urbano, particularmente quando, como é o caso do sudeste inglês, a economia imobiliária goza de um excesso de procura sobre a oferta. Não quer dizer que os artistas atraíam ou fomentem o desenvolvimento: pode ser que estejam apenas presentes.

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No entanto, a acusação de que os artistas são cúmplices no processo de desenvolvimento urbano tem que ser tomada a sério. O interesse dos promotores imobiliários e das autarquias locais pelo uso das artes tem vindo a aumentar, particularmente quando se trata de habitação social. Desde que o governo conservador britânico introduziu a política do ‘direito de compra’ em 1979, que a habitação social para arrendamento perdeu 1 milhão e seiscentos mil fogos. O que restou tem sido remodelado para corresponder aos padrões atuais, mas também para melhorar o aspeto das áreas circundantes. Esta diversidade de motivos e divisões de gestão não inspiram confiança nos residentes e os projetos de regeneração acabam por ser frequentemente acompanhados por artistas a quem são encomendados trabalhos de consulta, história oral, documentação e outros de natureza semelhante – tipos de iniciativa que se tornaram comuns nas cidades britânicas e que são geralmente apoiadas por um setor cultural que recebe financiamento público e se sente ansioso por provar a sua importância numa perspetiva mais alargada.

Será que este tipo de arte com empenho social humaniza o processo brutal em que pessoas que viveram num local por décadas são realojadas noutro por um suposto bem maior? Talvez. Será que afeta como, ou mesmo se, a regeneração acontece? Duvido que o faça. A regeneração urbana é orientada pela política, economia e demografia social, não pela arte. Os seus erros e injustiças têm que ser assumidos por quem tem o poder de mudança – e isso não acontece nas salas de educação das galerias de arte públicas. Se a arte tem uma função social crítica, talvez tenha algo de valor a oferecer aqueles cujas vidas são afetadas por decisões tomadas à distância e que não podem influenciar. Talvez consiga expressar e tornar visíveis outras experiências. Talvez consiga até criar símbolos e rituais de resistência.

Mas, mesmo ao tentarem fazê-lo, os artistas arriscam-se a um comprometimento e exploração por parte de forças maiores. As tensões problemáticas entre a arte e o poder não são nada de novo. Quantos foram os grandes artistas do passado que aprovavam os príncipes que lhes pagavam o salário e cuja autoridade cultural reforçavam? Até mesmo levantar esse tipo de questão é um privilégio. Os seres humanos são interdependentes – as suas ações pessoais, sociais, económicas e políticas, envolvem um compromisso com os outros. Os artistas que trabalham com outras pessoas, seja como participantes ou parceiros, abdicam de alguma autonomia em troca de um aumento de capacidade. O grau e natureza dos compromissos que fazem, são questões de juízo de valor e a única forma de navegar essas águas perigosas é aplicar todo o seu espírito crítico tanto ao trabalho que fazem como ao contexto social em que o mesmo toma lugar.

‘Estate Agency’

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A Campbell Works Gallery fica em Stoke Newington, uma zona do nordeste londrino, outrora considerada pobre, que se tem vindo a gentrificar progressivamente ao longo dos últimos 30 anos. O preço médio de uma casa na área é cerca de £670,000; em Stoke-on-Trent é £140.000. A galeria esteve entaipada até 8 de abril de 2017 e permaneceu fechada por mais três semanas até reabrir como agência imobiliária. A nova empresa tinha como funcionárias quatro mulheres jovens, elegantemente vestidas nos tons castanhos, amarelos e azuis da companhia. (As duas outras agentes imobiliárias eram também de Stoke-on-Trent: Nicola Winstanley, artista cuja prática tem uma forte componente de empenho social, e Penny Vincent, professora na Staffordshire University com especialização em voluntariado, cidadania ativa, participação e envolvimento comunitário.) Ofereciam aos visitantes dados sobre casas e espaços para trabalho em Stoke-on-Trent, sob o slogan ‘A sua vida, mas melhor’. No decorrer da semana seguinte, foram realizados uma série de eventos promocionais, incluindo um dia dedicado a famílias, com um almoço sobre o processo de aquisição e um ‘Guia para Potenciais Colonos’.

‘A Estate Agency (Agência Imobiliária) questionava se ter mais artistas num local seria uma coisa boa. Será que chega a um ponto em que já somos demasiados e começamos a ocupar, colonizar e mudar? Haverá um momento crítico em que tudo o que éramos de bom se torna prejudicial para o local e para as suas gentes?’

Anna Francis

Anna Francis é natural de Margate e testemunhou a transformação da cidade devido à presença de artistas que, excluídos de Londres por questões económicas, são atraídos pelo íman que representa a Turner Contemporary. Rebecca Davies cresceu na zona de Elephante and Castle, um bairro do sul de Londres onde uma regeneração urbana maciça e controversa faz os residentes locais temerem vir a ser excluídos da sua própria comunidade: mudou-se para Stoke-on-Trent, em parte, devido a essa pressão. A Estate Agency foi criada para levantar questões difíceis sobre o lugar dos artistas na regeneração pela cultura:

Que responsabilidade têm os artistas e as organizações de arte neste processo? Serão os artistas cúmplices dos planos dos construtores, ou tão vítimas como as comunidades forçadas a deixar o local? Como podemos usar a nossa intervenção criativa para que as coisas sejam feitas de maneira diferente? Quando as organizações de arte veem as localidades que as circundam mudar, precisam também de mudar a forma como trabalham de modo a refletir essas mudanças externas?

Estate Agency

A ironia com que a Estate Agency deu expressão a essas tensões não foi do agrado geral e o projeto atraiu algumas críticas duras nas plataformas digitais. Foi uma experiência traumática, mas para Anna Francis e Rebecca Davies é a delicadeza destas questões, e a sua relevância para artistas com práticas de empenho social, que torna imperativo o debate das mesmas.

‘Não nos é permitido falar sobre o assunto? A Estate Agency e o Portland Inn Projeto são extremamente importantes porque acredito sinceramente na mudança liderada pelas pessoas. Como artistas falamos imenso em trabalhar com pessoas. Não fazemos descriminação entre um padeiro e um construtor. Acredito que, para conseguirmos influenciar a mudança, temos que nos sentar à volta da mesa com todas as partes interessadas.’

Rebecca Davies

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Portland Inn Project

Mudar o mundo

A desindustrialização está a mudar Stroke-on-Trent de uma forma profunda e complexa. Como é que a arte e o desenvolvimento cultural irão influenciar essa mudança é o que se irá ver, mas organizações locais como a Appetite, a British Ceramics Biennial, o AirSpace e a Restoke, entre outras, têm trazido novas ideias e oportunidades à cidade. Tal como o têm feito artistas individuais, incluindo Anna Francis e Rebecca Davies, com o seu compromisso para com a comunidade em redor de Portland Street. O trabalho que fazem é valorizado pelos seus vizinhos e daí poderão surgir novas instalações permanentes para atividades, sociais, educativas e criativas. Mas as questões que têm estado a levantar podem vir a ser ainda mais importantes. Outras agências poderiam assumir o Portland Inn e transformá-lo num centro comunitário, mas quem mais iria levantar as questões que as artistas levantam acerca da cidade, da sua cultura e do seu povo?

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Spode Rose Garden (AirSpace)

Mesmo quando o trabalho dos artistas não é imediatamente acessível aos outros, tem a capacidade de surpreender e destabilizar. Ao criar a Spode China Rose como objeto de cerâmica e como planta viva, o AirSpace criou também um símbolo de como as antigas instalações da fábrica podem ser renovadas. Ao criar nas ruínas do Wedgwood Institute, uma apresentação com pessoas que imigraram para a localidade, a Restoke demonstrou como os novos habitantes podem constituir uma oportunidade de aprendizagem ao invés de uma ameaça. Ao trabalharem com uma agência imobiliária para questionar atitudes relativas a propriedade, comunidade e envolvimento social, Anna Francis e Rebecca Davies estão a ajudar outros artistas a pensar de forma mais crítica sobre as suas próprias ações. As iniciativas descritas são diferentes entre si, mas partilham uma profundidade que significa que nos ficam na mente. Onde outras podem eventualmente pregar, estas aceitam as complexidades e os sentimentos das pessoas. Não dizem a ninguém o que pensar, apenas que vale a pena pensar sobre estas questões.

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Open Day at Portland Inn

Subjacente aos diversos dilemas éticos do Portland Inn Projeto e da Estate Agency, existe uma questão mais ampla que diz respeito a todos os envolvidos em arte participativa: que impacto podemos ter? A dimensão das questões com que os artistas se envolvem é absolutamente desproporcional aos seus recursos e capacidade. Os Cardboard Citizens  e a Streetwise Opera trabalham apenas com os semabrigo; a In Place of War apoia a arte em zonas de conflito; os projetos ‘Bed’ e ‘Crystal Quilt’ desafiam preconceitos acerca de mulheres idosas. Que impacto é que a arte pode esperar ter em questões socias desta magnitude?

Para os que persistem com este tipo de trabalho de empenho social no âmbito das artes e para além delas, a resposta situa-se algures entre ‘pouco’ e ‘quem sabe’. Situa-se no acreditar que fazer alguma coisa é melhor do que não fazer nada, que uma pequena mudança é melhor do que mudança nenhuma; que falar sobre o que está errado é melhor do que permanecer em silêncio; que testemunhar pode ser um ato moral mesmo quando, ou particularmente se, nenhum outro estiver disponível. Possivelmente situa-se, acima de tudo, no acreditar que um espírito crítico, interrogativo e autoconsciente está na base de uma melhor ação, mesmo quando difícil e com consequências potencialmente dolorosas. Esta é a melhor garantia que temos de que o trabalho que fazemos em arte participativa traz mais benefícios do que danos. Parece-me um lugar honroso de se ocupar.

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