‘We’re here because we’re here’ – Um caso de estudo de arte participativa

 

 

 

'we're here because we're here' in Glasgow © Eoin Carey (1)
‘We’re here because we’re here’ in Glasgow © Eoin Carey


Estamos aqui

Sem palavras com esta comemoração #Somme100. Numa altura em que ser britânico faz pouco sentido, é absolutamente maravilhoso. #wearehere

Tweet de Charlotte Gittens, 14:48, 1 de julho de 2016

Sexta feira, 1 de julho de 2016, os passageiros matinais que cruzavam o átrio da Estação Central de Glasgow deparavam-se com um estranho cenário. Entre o Starbucks e uma tasquinha de pastéis da Cornualha, encontrava-se um grupo de soldados em silêncio. Envergavam uniformes da Primeira Guerra Mundial, alguns com kilts de regimentos escoceses, e apresentavam-se munidos de mochilas, cinturões e capacetes – mas não tinham armas. Aguardavam calmamente, apoiando-se ora numa perna ora na outra, de cócoras ou sentados no pavimento. Um ou outro entretinha-se com um cigarro. Nenhum prestava atenção ou falava diretamente com os outros. Mas, em toda a sua solidão, eram um tropa. Repentinamente, levantaram-se e com a melodia de Auld Lang Syne(Chegou a Hora do Adeus), cantaram:

We’re here because we’re here, because we’re here, because we’re here, We’re here because we’re here, because we’re here, because we’re here.

A canção foi-se dissipando pelo átrio da estação e os soldados retomaram a sua vigília. Não respondiam quando alguém se aproximava ou lhes dirigia a palavra, aceitando quando muito um aperto de mão. Alguns dos que os abordaram, receberam das suas mãos um pequeno cartão branco:

 

We are here card

Às 7:28 da manhã de 1 de julho de 1916, minas de grande potência explodiam sob as trincheiras alemãs no norte de França. Ao cair da noite tinham já morrido 19.240 soldados britânicos, ao que acresciam alguns milhares pertencentes às tropas francesa e alemã. A batalha de Somme prosseguiu até novembro de 1916, altura em que, entre os dois lados do conflito, o número de vítimas ultrapassava já um milhão. Como uma pequena lápide perecível, cada cartão ostentava o nome de um homem que perdera a vida no primeiro dia da batalha.

Os soldados da Estação Central de Glasgow faziam parte dos 1.600 rapazes que nessa manhã tinham partido a pé ou de transportes públicos de locais espalhados por toda a Grã-Bretanha e Irlanda do Norte: Bangor, Birmingham, Leeds, Ply-mouth, Londres, Oldham, Salisbury, Cardiff… Ao longo do dia, calcorrearam ruas, vaguearam alheiamente pela IKEA e pelo Tesco, fumaram cigarros em paragens de autocarro, viajaram em comboios sem destino. Os turistas de um cruzeiro foram encontrá-los no cais de Lerwick, de onde, em 1914, 200 rapazes das Ilhas Shetland tinham embarcado no primeiro transporte rumo ao sul. Em Belfast, alinharam-se junto ao Europa Hotel, famoso pelas frequentes explosões na época do conflito na Irlanda do Norte. Na estação de autocarros de Chester, foram vistos entre transeuntes e crianças de escola, os seus uniformes pardos a contrastar com a estética garrida das empresas rodoviárias.

 

'we're here because we're here' in Sheffield
‘We’re here because we’re here’ (Sheffield, 14-18 Now)

Ao fim do dia, ao aproximar-se a hora de ponta, em Sheffield, Waterloo, King’s Cross e Glasgow, os soldados reuniram novo. Iniciaram uma marcha em círculos, no sentido dos ponteiros do relógio e no sentido contrário, propositadamente sem propósito. E cantaram, como tinham cantado os Tommies que representavam.

We’re here because we’re here, because we’re here, because we’re here, We’re here because we’re here, because we’re here, because we’re here…

Retiraram-se com um último rugido, desaparecendo entre a multidão tal os fantasmas que eram. Um aplauso tímido marcou a sua partida.

We Are Here © Jeremy Deller
‘We’re here because we’re here’ Photo © Jeremy Deller

Porque estamos aqui

‘Tivemos que ir a lugares estranhos e talvez seja aí que esteja a arte, em ir a lugares onde não se tem a certeza da reação que se vai encontrar, mas tem que se expandir os limites daquilo que é aceitável.’

Jeremy Deller

‘We’re here because we’re here’ (‘Estamos aqui porque estamos aqui’) foi conceptualizado pelo artista Jeremy Deller, em reposta a um convite da 14-18 Now, uma entidade criada para comemorar a Primeira Guerra Mundial. O trabalho foi desenvolvido ao longo de vários meses por uma equipa liderada por Deller e Rufus Norris (diretor do Teatro Nacional em Londres), em parceria com 26 teatros e organizações de artes de todo o Reino Unido.[i]O encontro inesperado e inexplicado era central à visão de Deller, como tal, o projeto teve que ser planeado e ensaiado em segredo. Os convites para o integrar eram vagos e feitos através das listas de contactos das organizações participantes. Tal como os voluntários de 1914, os homens que responderam não tinham ideia do que os esperava.

O National Theatre of Scotland (Teatro Nacional da Escócia) foi um dos primeiros a aderir ao projeto. Fundado em 2006, funciona sem possuir um espaço performativo próprio, optando por uma abordagem descentralizada que obriga a parcerias. Muitas das suas produções têm acontecido em locais pouco convencionais e envolvido não-profissionais no elenco, como tal, a organização tinha já redes de contactos às quais recorrer quando começou a recrutar participantes em Glasgow e nas Ilhas Shetland. Nos primeiros meses de 2016, cerca de 80 homens aderiram ao projeto na Escócia, tendo todos jurado segredo sobre o que iriam fazer. Cada um recebeu o nome de um soldado que tinha morrido no primeiro dia da batalha e foi instruído para pesquisar a história do individuo em questão, recorrendo a recursos preparados para o efeito pela 14-18 Now e pelo Birmingham Repertoire Theatre. Muitos dos participantes vieram a envolver-se intimamente com a história do homem que representaram. Um dos participantes das Ilhas Shetland descobriu que o seu próprio avô tinha integrado o primeiro grupo que partiu das ilhas rumo a França. Tal como explicado por um dos participantes de Glasgow no dia 1 de julho, invocar uma pessoa real pode ser uma emoção muito forte:

‘Acho que quando hoje estiver na rua, a sensação principal vai ser de responsabilidade. A nossa tarefa é dizer que isto aconteceu, e temos que ter consciência disso e que tê-lo presente.’

Quatro regras.png

 

Foram-lhes tiradas medidas para os uniformes e, em ensaios semanais, aprenderam os rudimentos do treino militar e os comportamentos que teriam de adotar na rua. Os profissionais de teatro tinham tido em consideração as dificuldades que poderiam surgir com o aparecimento não anunciado dos soldados nas ruas, mas não tinham previsto o efeito que isso poderia ter em algumas pessoas:

‘Treinámo-los para um sem número de reações por parte do público – pessoas que quisessem tirar selfies, abuso por parte de bêbados nas ruas, ou indivíduos pacifistas, mas aquilo para que não os treinámos foi para que as pessoas se fossem completamente abaixo perante eles. E isso aconteceu quase de imediato, houve pessoas que literalmente paravam e desatavam a chorar, ou vinham ter com eles e queriam abraçá-los, dar-lhes um aperto de mão ou simplesmente estar com eles.’

Simon Sharkey, NTS

As imagens e comentários que começaram a inundar plataformas digitais como o Twitter, Facebook e Instagram logo após as 7:00 da manhã de dia 1 de julho, exprimiam a emoção despertada pelo encontro com estas figuras silenciosas no decorrer do que seria uma viagem rotineira a caminho do trabalho.

@kirarocksu

(‘Perguntei a um dos rapazes se ía haver uma flash mob(com o cérebro obviamente em modo de trabalho), ele não me respondeu, meteu a mão ao bolso e deu-me um cartão que dizia quem era e onde tinha morrido, quase rompi em pranto em frente a ele.’) @kirarocksu Instagram 1 July 2016

 

A notícia propagou-se em ondas tal como o projeto. Algo que começou com um artista, foi passado a produtores, depois a parceiros, participantes e transeuntes, até ter finalmente chegado a quem o encontrou em plataformas digitais, através de feedsde notícias ou partilhado por um amigo. Ligou o pessoal, simbolizado pela oferta do cartão com um nome, ao coletivo, através partilha da experiência individual. Tal como os telegramas que chegavam da frente de batalha, os cartões dos soldados trouxeram algo inimaginável de volta à escala humana. Nomes tornaram-se rostos. Aquilo que era transmitido de uma pessoa para outra em 140 carateres ou numa imagem, tornou-se íntimo e público, pessoal e nacional. Tal é a capacidade da arte, que consegue albergar mundos num dedal.

No teatro, tal como na guerra, o sucesso pode ser uma questão de preparação. Para os participantes, 1 de julho de 2016 marcou o culminar de meses de treino, ensaio e envolvimento com vidas perdidas. Trouxe-lhes também o alívio de, finalmente, poderem partilhar com outros o que andavam a fazer de forma tão discreta. Um dos assuntos sobre os quais quiseram falar nessa noite, foram os encontros com pessoas a cujas emoções tinham sido incapazes de responder enquanto habitavam a personagem.

NTS Shetland Group afterwards
At the end of the day, in Shetland (© Simon Sharkey, National Theatre Scotland)

No decorrer das semanas seguintes, as conversas tiveram continuidade através de grupos criados no Whatsapp para gerir o projeto e de outras plataformas mais públicas; reacenderam-se quando o filme de Jeremy Deller e Kate Church sobre o dia do evento foi transmitido pela BBC e os participantes adquiriram maior perceção sobre a escala do projeto de que tinham feito parte. O National Theatre of Scotland, tinha encomendado a um fotógrafo que produzisse retratos individuais dos participantes em uniforme – para celebrar o momento, cada um recebeu uma cópia do seu retrato. E, tal como todas as outras pessoas envolvidas no projeto, cada participante recebeu também uma cópia da partitura musical da sua canção, assinada pelo artista.

Because we’re here

Porque estamos aqui

‘We’re here because we’re here’ teve uma duração curta, mas tocou milhões de pessoas porque foi concebido para a era das redes sociais. Não foi por acaso que no dia do evento #wearehere atingiu uma popularidade extraordinária no Twitter: fazia parte do conceito do projeto. Nas Ilhas Shetland, os soldados foram enviados para a praia de areia branca da Ilha de St. Ninian e para os penhascos de Esha Ness, não porque lá fossem ser vistos por muita gente, mas para que gerassem o tipo de imagens icónicas que são partilhadas nas redes sociais. Ver essas fotos ou ouvir o relato de um amigo que viu os soldados, pode não gerar a mesma emoção que um encontro cara a cara, mas amplia grandemente o alcance do evento. Existem muitas formas e níveis de participação.

Os aspetos mais inquietantes do trabalho – o perigo de sentimentalismo ou manipulação, a ambiguidade trazida pelos soldados nas ruas em tempos de verdadeira insegurança, o simbolismo do sacrifício e da ressurreição, até mesmo o marcar o início e não o fim da guerra – são questões que não podem ser separadas do seu tópico. Ao longo da história, a arte tem permitido ao ser humano confrontar as suas aflições e angústias. Muitos dos que viveram o período da Primeira Guerra Mundial voltaram-se para a arte durante ou a seguir ao conflito e é através da sua criatividade que os eventos da época ainda comunicam connosco. Poderá dizer-se o mesmo da arte de hoje em dia? Terá ela a intenção e a capacidade de nos acompanhar nas nossas sendas mais difíceis? Pense-se o que se pensar de ‘We’re here because we’re here’, a coragem do envolvimento criativo com o luto, memória e honra, com a guerra e militarismo, com a identidade nacional, em resumo, com questões de vida e de morte, é francamente admirável.

É importante lembrar que já não resta ninguém vivo que tenha lutado na Primeira Guerra Mundial, possivelmente nem há ninguém que se lembre de ter vivido esse período. Como tal, perdemos a ligação humana ao acontecimento, o que torna o momento interessante e potencialmente difícil, porque é quando surge a tendência para romantizar os factos. Eu escrevia constantemente no meu bloco de apontamentos “EVITAR O SENTIMENTALISMO”. Mas se o público quiser sentir-se sentimental acerca de alguma coisa, vai sentir-se e isso é algo que não podemos mudar. No entanto, espero que o público tenha levado um pequeno abanão. Talvez seja essa a apalavra que procuro – um abanão.

Jeremy Deller

Links

 


O trabalho foi uma encomenda da organização 14-18 NOW; concebido e criado por Jeremy Deller, artista vencedor do Prémio Turner, em colaboração com Rufus Norris, diretor do National Theatre; e produzido pelo Birmingham Repertory Theatre e National Theatre em parceria com as seguintes organizações: Lyric Theatre Belfast, Manchester Royal Exchange, National Theatre of Scotland, National Theatre Wales, Northern Stage, Playhouse Derry-Londonderry, Salisbury Playhouse, Sheffield Theatres e Theatre Royal Plymouth: ver https://becausewearehere.co.uk

Agradecimentos Simon Sharkey, Jeremy Deller and Chloe Morley. Fotografia: cortesia da organização 14-18 Now, excepto quando o crédito é atribuído a Jeremy Deller ou Simon Sharkey al.